Ainda que já sentisse o apelo da literatura, matriculou-se na Escola de Farmácia e chegou a colar grau em 1925, ano em que se casou com Dolores Dutra de Morais. Se já dera dois passos importantes nesse ano, empenhou-se em nova empreitada: juntou-se a mais três amigos e fundou A Revista, órgão oficial do modernismo mineiro que, nos seus três números, estampou os grandes nomes do movimento literário de 1922. A todas essas conquistas se somaria talvez a maior alegria da vida de Drummond: o nascimento, em 1928, de sua filha Maria Julieta Drummond de Andrade, a quem ele devotaria não só o amor de pai, mas também a admiração pela inteligência e por seu talento literário, o que fez da relação entre os dois uma troca excepcionalmente preciosa. Muito das conversas de toda uma geração no Café Estrela, de Belo Horizonte, e uma certa flânerie de Drummond pela cidade forjaram o poeta de Alguma poesia, de 1930, seu livro de estreia, quando o modernismo já estava consolidado. Depois veio Brejo das almas, de 1934, livro em que, como no primeiro, o poeta ainda se revela contido nas emoções.

No mesmo ano, Drummond transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro, onde assumiu a chefia do gabinete do ministro da Educação e Saúde Pública, seu amigo Gustavo Capanema. Dessa forma o poeta começou vida na antiga capital do país, onde ficaria até morrer. Em 1940, com o lançamento da pequena edição de Sentimento do mundo, de apenas 150 exemplares, é que o poeta se mostra inteiro, liberto da censura emocional. Otto Lara Resende, no artigo intitulado “Segunda mão”, diz que “ninguém faz ideia do que significava possuir um exemplar dessas bíblias do lirismo itabirano. […] Ver, assim que ela apareceu, era um privilégio. Um deslumbramento”. Deslumbramento que se repetiria outras vezes, com outros livros, como em 1945, com a publicação de A rosa do povo. Drummond colaborava no suplemento literário dos jornais cariocas A Manhã, Correio da Manhã e Folha Carioca. Exerceu muitas outras atividades em órgãos federais, como a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde trabalhou com Rodrigo Melo Franco de Andrade. Ali se tornaria chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento, para só sair em 1962, aposentado.

Coerente nas suas escolhas, podia ficar pouco tempo em um cargo, como aconteceu em 1945, quando, a convite de Luís Carlos Prestes, assumiu a coeditoria do diário comunista Tribuna Popular. Na Comissão de Literatura, do Conselho Nacional de Cultura, a qual foi convidado a integrar pelo então presidente Jânio Quadros, em 1961, não ficou além das primeiras reuniões. Era, no entanto, de duradoura fidelidade quando em sintonia com o trabalho que abraçava. Desse modo, colaborou durante 15 anos, aos domingos, no Correio da Manhã, para só sair em 1969, ano em que passou a escrever no Jornal do Brasil. Só em 1984 abandonaria o JB, ao encerrar sua carreira de cronista. A produção poética de Drummond, reunida na Obra completa, de 1964, correu paralela à de cronista, publicada em livro pela primeira vez em Confissões de Minas, de 1944. Ele escreveu durante 64 anos uma prosa de altíssima qualidade literária que o coloca entre os mestres, não só pela agilidade e leveza próprias ao gênero, como pela impressionante variedade temática de que tratou. Fosse como poeta, cronista, tradutor, autor ou missivista, não deixou de organizar metódica e cuidadosamente sua produção intelectual, assim como não negligenciou cuidados com os documentos de sua vida de autor, pai ou cidadão. Arquivista nato, bibliotecário intuitivo, seu pequeno arquivo de natureza mais pessoal e sua biblioteca de cerca de 4 mil volumes, sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde fevereiro de 2011, revelam muito da personalidade e do talento desse artista que estranhamente foi também um burocrata feroz.

Entre as incontáveis honrarias que recebeu em vida, Drummond foi exaltado até mesmo no carnaval carioca, quando em 1987 a Estação Primeira de Mangueira o homenageou com o enredo “O reino das palavras” e ganhou o campeonato. A alegria do poeta não foi integral, porque naquele momento sua filha, Maria Julieta, já sofria de doença que a levaria à morte no dia 5 de agosto de 1987.

Carlos Drummond de Andrade morreu no dia 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro, 12 dias depois da morte de Maria Julieta.

Informações: Instituto Moreira Salles (IMS)